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Forrozeiros criticam Léo Santana em live de São João da Globo: ‘Descaracterização’

fonte: Bahia.ba

Foto: Saulo Brandão/ Arraía do Galinho

“Fagulhas, pontas de agulha, brilham estrelas de São João. Babados, xotes e xaxados…”, por anos as estrofes da música ‘Festa do Interior’, interpretada por Gal Costa, descrevia o verdadeiro significado de uma das festas mais tradicionais e representativas da região Nordeste, o São João.

Com o passar do tempo, no entanto, a tradição foi abrindo espaço para a renovação no cenário e para novos costumes, o que desagradou quem prefere se manter fiel a essência junina.

O Fórum Forró Raiz é um exemplo deles. Em entrevista ao bahia.ba, o grupo se manifestou contra a escolha do cantor Léo Santana como representante baiano para o especial da Live de São João produzido pela Globo Nordeste que será exibido no dia 20 de junho.

“Com tantos artistas referências, forrozeiros e forrozeiras, do nível que a gente tem aqui, da maior qualidade, porque a Bahia é o estado que mais produz forró no São João, a gente tem uma referência muito grande das festas identitárias, e nós somos descaracterizados no único período que é obrigatório, inclusive pela Lei da Zabumba, e também pela memória afetiva do São João. É o único período que a gente consegue trabalhar, o forrozeiro na Bahia, e que deveria ter mais respeito pela mídia, quando a gente mais precisa desse apoio, a gente sofre uma descaracterização como essa”, afirmou Alessandra Gramacho, presidente regional do Fórum.

A Lei da Zabumba, citada por Alessandra Gramacho, foi aprovada pela Assembleia Legislativa da Bahia em 2015, e exige que pelo menos 60% dos recursos públicos sejam investidos na contratação de artistas que valorizem a cultura da Bahia durante o São João. Em seu primeiro teste, em 2016, o projeto de lei deu “chabu”, e até hoje os forrozeiros sentem dificuldades de em conquistar esse espaço.

No caso do projeto realizado pela TV Globo, a lei não pode ser aplicada por se tratar de uma instituição privada.

Alessandra, que também é cantora e se considera uma militante do forró, afirma que o problema não é com Léo, e sim com a iniciativa da TV em convidar um artista que não é do gênero para fazer parte da programação de São João.

“Nada contra o cantor, que tem sua importância para música baiana, mas temos dezenas de forrozeiros que representam genuinamente o Estado. Quando uma agência desse tipo propaga para o mundo todo essa ideia, parece que eles jogaram uma pá de terra em cima da gente”.

A presidente do Fórum Forró Raiz ainda lamentou a situação da festa neste momento de pandemia. O São João é responsável por movimentar a economia em vários estados da região, e atualmente o forró movimenta mais de 3 milhões de profissionais.

“Pra gente tá sendo muito triste, muito penoso. É uma comoção muito grande na comunidade forrozeira, porque a gente espera o ano todo para tocar no São João, e não é só por causa dos recursos financeiros, mas também pela troca com o público. Fazer cultura no Brasil é muito difícil, imagine fazer cultura de raiz? A gente está recebendo tudo isso de forma muito dolorosa. A gente não tem nenhum apoio, estamos desassistidos de qualquer tipo de política pública na Bahia, mesmo com a determinação do Iphan de tornar o forró patrimônio imaterial”.

Especial São João da TV Globo

Além de Léo Santana, representando a Bahia, estão confirmadas as participações de Mano Walter, representando Alagoas; Solange Almeida, pelo Ceará; Calcinha Preta, por Sergipe; Fulô de Mandacaru, por Pernambuco; Cavaleiros do Forró, pelo Rio Grande do Norte; da Paraíba, Amazan; e do Maranhão, Flávia Bitencourt.

A live faz parte de uma programação da emissora montada para o período junino. A Globo Nordeste ainda vai exibir um “Globo Repórter” especial, mostrando as belezas da cultura do sertão nordestino, um programa sobre Domiguinhos, um especial musical com o forrozeiro Genival Lacerda e os Melhores Momentos do Festival de Quadrilhas Juninas da Globo.