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Estudantes defendem mulher que teria chamado PMs de “putas”; “mal interpretada”

Do Aratu Online, parceiro do Alta Pressão.

Crédito da Foto: arquivo pessoal

Integrantes do Coletivo de Estudantes Indígenas da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) estão protestando contra a prisão que eles julgam injusta da estudante Fernanda Dantas Carneiro, ocorrida no domingo (5/8) no município de Amargosa, a 240 km de Salvador.

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Os alunos alegam que a jovem foi “mal interpretada por um corpo público sem embasamento teórico-prático necessário para entender sua fala e o seu lugar de fala”, além de ter sofrido uma abordagem grosseira.

Na versão do coletivo, Fernanda estava com mais três amigos em um quiosque dentro de uma feira que acontecia um bazar no momento em que policias militares realizaram uma abordagem com o grupo. Logo em seguida, ao conversar com sua amiga, a estudante disse: “bala e fogo nas putas”.

Outros militares que também estavam fazendo rondas na feira ouviram, pararam bruscamente e voltaram. Fernanda e os amigos estranharam por já terem sido abordados anteriormente, até que os agentes falaram que entenderam que a frase tinha sido diretamente para eles. A estudante negou ter direcionado as palavras.

Um dos policiais, que era negro, disse que prenderia Fernanda por desacato. A versão traz ainda, que a mulher “se indignou por não estar fazendo nada plausível para toda a situação acontecer, sendo ela participante ativa das causas do povo negro, não acreditou que um homem negro que faz parte do seu povo a tratou de forma nada sutil, enquanto que um outro, eventualmente não negro, a tratava com mais suavidade, dialogando melhor no sentido das explicações que eles pediam referentes ao motivo inicial da abordagem”.

LEIA A NOTA NA ÍNTEGRA:

O Coletivo de Estudantes Indígenas na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFBR), vem a público manifestar seu mais veemente repúdio à prisão da estudante indígena Fernanda Dantas Carneiro, do povo Pataxó (Poro Seguro-BA), no final da tarde deste sábado (04 de agosto de 2018), no Centro da cidade de Amargosa, acusada de injúria racial e desacato por Policiais Militares (PM’s).

Segundo a versão apresentada pelos policiais do PETO/99ªCIPM, Fernanda havia proferido a seguinte frase: “Bala e fogo nas putas!”. Esta frase é trecho de uma música do rapper baiano Vandal. Ao ouvirem tal expressão, os policiais realizaram uma truculenta abordagem na estudante. Relatos de outros estudantes apontam que tais abordagens (que são conhecidos pelos estudantes como “enquadramentos”), são frequentes no público universitário que reside na cidade.

Fernanda Pataxó é estudante da UFRB e militante das causas negra e indígena, como é de notório saber na cidade e universidade. Portanto, tal acusação resulta de interpretação equivocada por parte dos PM´s, pois dadas as condições étnico-raciais e de militância, ela seria incapaz de apresentar tal postura racista, já que se trata de uma pessoa INDÍGENA, PRETA E MILITANTE. Mesmo assim, sob tal acusação Fernanda foi presa e encaminhada até a Delegacia de Amargosa. Ressaltamos no que diz respeito à lei número 6001 de 19 de setembro de 1973, artigo 56, parágrafo único que garante aos povos tradicionais tratamento diferenciado em casos como este que tal legislação não tem sido cumprida e a mesma permanece presa.

Segue a campanha de mobilização do Coletivo de Estudantes Indígena: “Eu sou Fernanda, indígena do povo Pataxó da Bahia, preta e militante dos direitos dos povos indígenas e negros. Fui presa no dia 4 de agosto de 2018, na cidade de Amargosa, estado da Bahia, injustamente, devido à má interpretação de minhas declarações perante a um PM. Eu, filha nativa desse território, vítima de 518 anos de colonização, sei sim, o que é injúria racial. Minha honra, minha pele, minha crença e etnia é constantemente negada por esse sistema opressor. Eu sei o que é ser vítima de racismo!

Não sou racista, estou sendo mais uma vítima do racismo!”

FERNANDA PATAXÓ, LIVRE AGORA!!!

Coletivo de Estudantes Indígenas na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

VEJA O DEPOIMENTO DE TESTEMUNHAS:

#SOMOSTODOSFERNANDA

Testemunho dos estudantes do Centro de Formação de Professores – CFP que estavam com Fernanda durante a abordagem e sua posterior prisão. No sábado (04), a estudante de educação Física Fernanda Dantas Carneiro, militante indígena e negra foi presa perto da feira livre de Amargosa – Bahia. Naquele dia, Fernanda uma mulher indígena/negra, militante, conhecida por seus amigos por lutar pelos direitos do seu povo preto, acordou para montar seu bazar na feira e tentar levantar seu dinheiro para se manter na universidade excludente e sem permanência. Após recolher os artigos do seu bazar, Fernanda se juntou a amigos em uma confraternização em um dos quiosques dentro da feira onde policiais estavam fazendo ronda e abordagem e pararam o grupo que Fernanda, uma mulher INDÍGENA/NEGRA/MILITANTE fazia parte, contendo 2 homens e 2 mulheres (contando com Fernanda), Fernanda e seus amigos estavam parados em um quiosque dentro da feira livre, inicialmente os policiais abordaram pessoas que estavam ali perto e posteriormente o grupo que Fernanda estava, a abordagem teve como foco os dois homens do grupo e após os mesmos continuaram sua ronda pela feira e aos arredores. Fernanda continuou no quiosque e ao sair da feira sob o efeito de álcool foi levar as roupas que estavam no bazar para casa juntamente com seus três amigos, sendo testemunhas do ocorrido, o grupo precisou parar para organizar as caixas com as roupas do bazar e durante a conversa Fernanda disse a frase: “bala e fogo nas putas”, referenciando como as mulheres são vistas e tratadas na sociedade machista e patriarcal, tendo um contexto dentro da conversa em que estava inserida com sua amiga. Os policiais que passavam ao lado do grupo, não sendo os mesmos da abordagem anterior, dentro do carro, pararam bruscamente e voltaram em direção ao grupo mandando que os mesmos parassem e colocassem as mãos na cabeça. Se dirigiram ao grupo de forma brusca e truculenta, grupo esse que estranhou por já terem sido abordados anteriormente dentro da feira e não entenderam o motivo pelo qual estava acontecendo novamente, os policiais falaram que entenderam que a frase tinha sido diretamente para eles, mas em momento algum Fernanda se dirigiu para o carro que passava com os policiais, ou diretamente para eles. Fernanda se indignou com a forma que a abordagem estava sendo conduzida, de forma grosseira, e questionou o policial. O policial Mota não aceitando o questionamento da estudante indígena/negra/militante, disse que a levaria presa por desacato, não tendo resistência da parte dela, os policiais indignados ao ouvirem a frase chegaram falando: “não preciso passar na rua e ouvir bala e fogo nas putas” tendo tomado a frase para si, e Fernanda disse: “a puta sou eu”;. O policial Brandão, (que acusa Fernanda de racismo), grosseiramente pega o braço de Fernanda que não demonstrou resistência para coloca-la na viatura, Fernanda disse que respeitava mais o policial Mota do que o policial Brandão por estar se sentindo oprimida pelo policial negro, fazendo alusão a própria questão racial que coloca o preto contra o preto ou o preto contra o índio, por ter sido grosseiro e agressivo com ela durante a abordagem, se sentindo agredida. Fernanda Dantas, a indígena que resiste a todas as formas de opressão do sistema, se indignou por não estar fazendo nada plausível para toda a situação acontecer, sendo ela participante ativa das causas do povo negro, não acreditou que um homem negro que faz parte do seu povo a tratou de forma nada sutil, enquanto que um outro, eventualmente não negro, a tratava com mais suavidade, dialogando melhor no sentido das explicações que eles pediam referentes ao motivo inicial da abordagem. É importante saber que dentro do movimento negro, local de pessoas que se reconhecem negras e sentem orgulho disso, chamar alguém de negro ou preto não assume caráter pejorativo de ofensa racial, mas sim um tratamento entre pessoas que se reconhecem como IRMÃOS, LOGO, FERNANDA FOI MAL INTERPRETADA POR UM CORPO PÚBLICO SEM EMBASAMENTO TEORICO-PRATICO NECESSÁRIO PARA ENTEDER SUA FALA E O SEU LUGAR DE FALA.

Posted by Coletivo de Estudantes Indígenas na UFRB on Sunday, August 5, 2018

VERSÃO OFICIAL

Agentes da 99ª Companhia Independente (CIPM/Amargosa), responsáveis pela abordagem, disseram à Polícia Civil que faziam ronda pelo centro da cidade quando ouviram a jovem se referir a eles, falando: “bala e fogo nas putas!”. Ao ser abordada pelos, ela continuou o desacato e disse que não iria conversar com um soldado negro.

Na delegacia, ainda de acordo com os agentes, Fernanda não se intimidou e mais uma vez foi desrespeitosa: “meu Deus! Vou ser presa por um negro?”.