RESPOSTAS DE UMA TRAGÉDIA: Um mês depois, como estão os sobreviventes da Cavalo Marinho I?

Aratu Online

Foto: TV Aratu/Imagem Ilustrativa

Neste domingo (24/9), o Aratu Online inicia a série especial ‘Respostas de uma Tragédia’. De hoje até a próxima terça-feira (26/9), três reportagens serão publicadas com o objetivo de esclarecer, depois de um mês, algumas situações relacionadas com o naufrágio de uma lancha que resultou na morte de 19 pessoas, deixou dezenas de feridos e enlutou todo o estado da Bahia.

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O triste episódio aconteceu no último dia 24 de agosto. Naquela quinta-feira, a embarcação Cavalo Marinho I fazia a sua primeira viagem no dia, em uma tradicional e importante travessia. Ao todo, 124 pessoas — incluindo a tripulação — estavam a bordo.

Por volta das 6h, a lancha saiu do terminal marítimo de Mar Grande (em Vera Cruz), com destino a Salvador. Após dez minutos, e a cerca de 200 metros da costa, aconteceu o acidente que se transformou em uma grande tragédia.

Nesta primeira reportagem, conversamos com alguns sobreviventes para saber como estão sendo assistidos pela CL Transportes, empresa responsável pela embarcação, e autoridades competentes.

Aqui, também, queremos prestar solidariedade e apoio aos familiares daqueles que perderam suas vidas:

Antônio de Jesus Souza, 67 anos, Thiago Henrique de Melo Barreto, 35 anos, Ivanilde Gomes da Silva, 70 anos, Tais Medeiros Ramos de Sales, 32 anos, Lucas Medeiros Leão, 2 anos, Darlan Queiroz Reis Julião, 2 anos, Lais Pita Trindade, 20 anos, Dulciana dos Santos Queiroz, 38 anos, Davi Gabriel Monteiro Coutinho, 6 meses, Dulcelina Machado dos Santos, 59 anos, Sandra Lima dos Santos, 40 anos, Lindinalva Moreira da Silva, 50 anos, Rosemeire Novais Carneiro de Costa, 49 anos, Alessandra Bonfim dos Santos, 36 anos, Isnaildes de Oliveira Lima, 48 anos, Rita dos Santos, 54 anos, Edileuza Reis da Conceição, 53 anos, Edilene Oliveira dos Santos, 43 anos e Salvador Souza Santos, 68 anos.

Boa Leitura!

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Naquela manhã, sonhos, medos, sentimentos difusos foram deixados na Baía de Todos-os-Santos durante a tragédia e ecoaram por todo o país. Apesar da dor e tristeza, uma máxima impera: “a vida tem que continuar”. O Aratu Online conversou com três sobreviventes, pessoas que passaram por momentos de desespero, mas que, por sorte ou destino, se viram diante de um dilema: descobrir como seguir adiante.

O motorista Dirceu Souza Damasceno Lima, 42 anos, pode se considerar um homem de sorte. “A minha situação não foi tão séria. Machuquei o tornozelo. No dia do acidente, preferi até sair da UPA para dar lugar para casos mais graves.”

Ele diz viver sem limitações físicas, mas reclama da falta de suporte por parte das autoridades. “Nos primeiros dias, colocaram profissionais aqui, pessoas pra conversar conosco, mas só isso. A CL, nada. A única coisa que fizeram foi disponibilizar um psicólogo. Isso agora, quase um mês depois do acidente. Um completo descaso”.

Foto: TV Aratu/Imagem Ilustrativa

A única exceção foi o Ministério Público. “Eles prestaram todo o apoio. Trouxeram equipes pra cá, vários profissionais, carro, nos auxiliaram bastante. Foi o órgão que, de fato, olhou para as vítimas e familiares”.

O discurso é repetido pelo estudante de farmácia João Lucas dos Santos, 21 anos. “Não estão prestando nenhuma assistência. Tive um ferimento na perna e fui acompanhado por uma psicóloga da prefeitura de Vera Cruz, mas parei de ir por conta própria, porque eu não quis mais”.

Inconformados com a situação, eles afirmam que pretendem acionar a empresa judicialmente: “eu vou entrar com uma ação na Justiça. Vou procurar um advogado de minha confiança e acionar, não só a CL, mas também a Astramab”, conta Dirceu.

Lucas tem opinião semelhante: “eu vou ter que colocar eles na Justiça, porque preciso recuperar meu celular, documentos. A gente estava discutindo a possibilidade de uma ação conjunta, mas acredito que isso deva ficar mais para aqueles que perderam parentes na tragédia”.

Aprendendo a lidar com os traumas

Foto: TV Aratu/Imagem Ilustrativa

Os problemas impostos pela vida real superam obstáculos burocráticos, que todos temos que enfrentar diariamente. Para os sobreviventes da tragédia, há questões abstratas, íntimas, pessoais, que muitos não conseguem traduzir em palavras.

A estudante de enfermagem Luana Daniele, 33 anos, é moradora de Vera Cruz. Como estuda em Salvador, há três anos ele realiza a travessia quase que diariamente, o que virou parte de uma rotina já absorvida. Tudo mudou depois do dia 24 de agosto. Corajosa, ela voltou a realizar o percurso 15 dias após o acidente. “Estou indo, até porque não há outra solução, mas fácil não está sendo”. Segurança não parece ser uma das suas companhias durante a viagem. “A impressão que dá é que a cada dia está pior”, desabafa.

Roteiro semelhante é vivido por João Lucas, que também precisa viajar para Salvador quase todos os dias. “Voltei a fazer faculdade essa semana. Perdi 15 dias de aula, mas coloquei na minha cabeça que a vida tem que seguir. Quando passei pelo local, tive uma sensação muito estranha, ruim”.

Dirceu conta que, apesar dos traumas, tem conseguido tocar a vida com relativa normalidade. “Já consigo fazer quase tudo. Eu tenho uma cabeça boa, mas sei que nem todos são assim. Cada um reage de um jeito, mas eu estou bem. Já voltei a trabalhar, estou vivo, mas as marcas, as sequelas, ficam. Às vezes, acordo no meio da noite, converso com Deus, pergunto a razão para tudo isso ter acontecido.”

https://youtu.be/g4_ClSzWgaw

Nota da CL Transportes:

Procurada pelo Aratu Online, a assessoria da CL Transportes se posicionou a respeito do acidente e do trabalho de apoio às vítimas. No texto, a empresa diz que tem prestado total apoio aos sobreviventes desde o dia da tragédia. Além disso, afirma que a Cavalo Marinho I foi vistoriada e que foi aprovada em todos os testes e inspeções submetidas pelos órgãos competentes, sem ressalvas. A empresa ainda diz que vai esperar a finalização dos processos de investigação e que cumprirá tudo o que for determinado.

Confira a íntegra do texto:

Passado quase um mês do acidente com a Lancha Cavalo Marinho I, a CL Transportes continua a prestar atendimento social para as vítimas e familiares. Desde o momento do ocorrido a empresa se responsabilizou pelos serviços funerários – seja diretamente ou por reembolso posterior de valores – deu auxílio logístico para as equipes de busca do Corpo de Bombeiros e colocou à disposição uma equipe de assistentes sociais e psicólogos para atendimento em Mar Grande.

Esta equipe realizou mais de 80 atendimentos diversos, o que atingiu cerca de 50 sobreviventes do acidente, envolvendo desde acompanhamento médico, consultas psicológicas, visitas domiciliares, distribuição de medicamentos, encaminhamento para unidades de saúdes e clínicas, até o cadastramento de necessidades específicas de cada caso, seja a respeito de objetos perdidos ou de questões de natureza. Nos próximos dias, as pessoas que perderam seus documentos serão conduzidas pela empresa até Santo Antônio de Jesus para tirar toda documentação perdida no acidente.

A CL reafirma que tanto a Cavalo Marinho I, como o restante de suas embarcações, cumprem todas as normas estipuladas pela Capitania dos Portos e por isso vem sendo aprovadas em todas as vistorias e inspeções rotineiras sem que qualquer item de segurança ou procedimento técnico tenha sido questionado pelos órgãos competentes.

No caso da Cavalo Marinho I, convém ressaltar que a embarcação havia sofrido uma inspeção de surpresa no dia 20 de agosto, quatro dias antes do ocorrido e foi liberada pela Capitania dos Portos para continuar sua operação normalmente. A última vistoria de rotina acontecera no mês de abril com total liberação da lancha para suas atividades normais. A empresa aguarda o encerramento dos processos de investigação iniciados após o acidente e reafirma que irá cumprir todas as obrigações determinadas.

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