ORTOREXIA: Conheça o transtorno que atinge pessoas obcecadas por alimentação saudável

Aratu Online

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A regra é básica: uma alimentação balanceada é essencial para uma vida saudável e duradoura. E não precisa ir muito longe para constatar que várias pessoas têm seguindo à risca tal recomendação. Basta dar uma ‘stalkeada’ em perfis alheios nas redes sociais para em frações de segundos, deparar-se com pessoas que exibem, orgulhosas, pratos extremamente seletivos e suas hastags: #semlactose, #semaçúcar, #semglúten, #semgordura…

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Até aí, tudo bem. Correto? Nem sempre!!! Pois é… como tudo em excesso não é bom, ser saudável demais também pode representar um sinal de alerta para um novo distúrbio alimentar: a ortorexia.

De origem grega (“orthós” significa correto e “orexsis”, fome) -, o transtorno  é caracterizado pela necessidade do indivíduo de seguir uma dieta restritiva, rigorosa e considerada correta, que pode levar, por exemplo, à desnutrição e ao isolamento social. Em nome de uma “alimentação 100% saudável”, quem sofre do distúrbio deixa de comer itens enlatados, como açúcares, carne vermelha, entre outros. E, não para por aí. As ‘vítimas’ ainda leem e analisam rótulos de produtos compulsivamente.

“É a ‘nova doença’ da década, mas ainda não foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Ela tem tudo para ser enquadrada como uma doença, mas por ser algo muito recente e existir um limite muito tênue entre o que é normal e o que é patológico, ainda não foi reconhecida”, explica a médica nutróloga, Liliane Oppermann.

Procurada pela reportagem do Aratu Online, Liliane, que é membro da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), revela que a ortorexia é difícil de ser detectada. “Porque a pessoa acredita que está sendo o mais saudável possível e fica com a consciência tranquila. Mas chega um momento em que o comportamento abusivo, de só pensar em comer adequadamente, compromete a qualidade de vida”, explica.

A comida saudável está na moda. O Instagram que o diga. Não faltam variedades de pratos ‘convidativos’ na rede social.

Este foi o caso vivido pela baiana Karine**. Aos 31 anos, ela mora atualmente em São Paulo. À reportagem, ela garante que já superou o ‘drama’ da ortorexia, mas não foi nada fácil. Controlar o peso, por sinal, sempre foi um sofrimento para a médica oncologista.

“Desde criança, fui gordinha. Lá em casa, sempre teve essa cobrança. Aos 7 anos, frequentei os Vigilantes do Peso. Mas só comecei a ficar preocupada realmente, depois que eu passei a morar sozinha e vim para São Paulo. Tinha muita dificuldade de manter o peso. Aí, passei a fazer atividade física de uma forma mais regular. Então, acho que foi o exercício físico que me puxou, influenciou (a ortorexia)…”, detalha.

Extremismo

Pelo fato de acreditar que determinados alimentos fazem mal, o ortoréxico corta nutrientes importantes do cardápio, como carboidratos e proteína animal, sem fazer substituições de qualidade.

“O extremismo leva à deficiência de ferro, zinco, vitamina B12 e cálcio no corpo. Como consequência desse radicalismo, podem surgir doenças como a anemia, aumento do risco de doenças imunológicas, hipertensão e outras”, ressalta Liliane Oppermann.  Os hábitos alimentares restritos também são responsáveis pelo surgimento de outros transtornos alimentares, como a bulimia e a anorexia.

“Nunca tive nenhum problema de saúde nessa época que eu era mais ortoréxica. Minha ortorexia não tem nada a ver como anorexia , com bulemia… tem haver com vigorexia. Na época, eu era meio viciada em academia. Aí, cheguei ao ponto desse extremo de não consumir nada não natural , não tomar remédio. Bagunçou um pouco minha parte hormonal , fiquei um tempo sem menstruar… meu colesterol ficou muito, muito baixo. Logo depois, regularizou”.

Sobre o tratamento da ortorexia, a nutróloga Liliane Oppermann afirma que é indispensável acompanhamento psicológico

Outras atitudes típicas de quem sofre do transtorno é o de se negar a ir a festas ou sair para comer fora com a família ou os amigos, por medo de cometer deslizes na dieta. Além disso, existe a possibilidade de desenvolver problemas psicológicos como a depressão, irritabilidade e insônia.

“Eu deixava, por vezes, de sair. Dependendo do restaurante que as pessoas iam, eu não ia. Quando ia era muito frustante, tinha que ficar olhando para parede e não podia ver os pratos das pessoas para não querer comer também. Tinha o fato também de eu chegar no restaurante, olhar todo o cardápio e não ter nada para comer. Nesse caso, eu esperava chegar em casa para fazer minha refeição. Para todo lugar que eu ia, levava minhas refeições numa mala , por que eu sabia que, a depender do lugar, não teria o que comer. Eu preparava tudo, só comia o que eu cozinhava”, revela Karine, que garante ter superado esse ‘drama’.

“Tenho consciência de que cheguei ao extremo e de como isso impactou minha vida. Hoje, eu mudei mais pelos outros, os outros falavam, reclamavam … mas agora eu encontrei o equilíbrio. Eu vivo de dieta de segunda à sexta e nos finais de semana eu me liberto. Interajo com meus amigos, sem me preocupar mais com comida e sem ver eles falando sobre o que eu como”, garante.

Equilíbrio é o caminho

De acordo com Liliane, a grande dica é encontrar o equilíbrio. “Nós comemos para viver e não vivemos para comer! A alimentação é um processo necessário e coadjuvante da nossa vida para nos fornecer energia. Ele é um meio e não um fim”.

Sobre o tratamento da ortorexia, ela afirma que também é indispensável o acompanhamento psicológico e, claro, a modificação da dieta através dos esforços nutricionais. Segundo a especialista, o trabalho do nutrólogo ou endocrinologista só é eficaz com o auxílio da psicologia comportamental, pois além de permitir que os pacientes se abram para uma reeducação alimentar, também auxilia na desmistificação dos produtos industriais presentes no mercado.

**O nome da entrevistada foi trocado para não identificá-la.

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